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Albânia de Enver no lugar*
autor: Yves Rousselet
título: Construction illégale détruite en bord de mer exposição individual
Yves Rousselet
> Albânia de Enver no lugar*

A Albânia já não é actualidade, a Albânia está na moda.

Escamoteadas das nossas memórias, caçadas dos nossos ecrãs, as imagens dos "boat people" que invadem os cais dos portos de Durres, de Vlora, os fugitivos amontoados em cachos apertados nas pontes estreitas dos navios de partida para a Itália, a Grécia.

Em 1997, os Albaneses recentemente libertos do jugo de uma mais das mais arcaicas ditaduras comunistas, naufragam outra vez no caos económico, político e apenas têm esperança ao olhar para além do horizonte, para além de algumas milhas marítimas, para uma Europa tão próxima e tão remota.

Para pôr termo ao estado de insurreição no país, a O.N.U envia nesta data quase seis mil soldados; as associações humanitárias revezam-se à cabeceira de uma população vítima violenta de uma depressão económica, as instituições internacionais participam na reconstrução de infra-estruturas: transportes, energia, indústrias em crise.

Hoje, entre pequenos golpes de projectores sobre a miséria, sobre a corrupção e os tráficos de toda a natureza, a Albânia já não suscita o interesse dos meios de comunicação social. Assiste-se mesmo a uma situação bastante paradoxal: recentemente saída do isolamento na qual a mantinha o regime de Enver Hoxa, após as suas rupturas sucessivas com a Jugoslávia vizinha, seguidamente com a URSS e por último com a China, a sociedade albanesa, mais aberta do que se imagina frequentemente, é vítima de um quase desterro, geralmente reservado no planeta aos países ditos "pouco frequentáveis".

Há quatro anos que percorro a Albânia "mais afastada dos países próximos" sempre com muito prazer ao sentir-me acolhido, quase, digo eu, esperado.
O país não é imenso geograficamente, a sua superfície é equivalente à da Bélgica.
Mas não há necessidade de atravessá-lo a grande velocidade, o relevo não se presta a tal, e o estado da rede rodoviária também não. Pequenas estradas escarpadas de montanha ou zonas costeiras; o convite para descobrir as riquezas do património cultural, histórico assim como a beleza das paisagens é constante; a hospitalidade para o viajante é sempre uma tradição bem conservada.

Então e o turismo? A Albânia, é novo "eldorado" para todos os que recentemente e em grande número esgotaram o capital aventureiro e a autenticidade das costas da Croácia ou do Montenegro. O destino tem inevitavelmente com que seduzir, com a condição de não se ceder aos encantos da expatriação devida à diferença do nível de vida, ou de recusar os clichés de exotismo dos países sub-desenvolvidos.

Pelo meu lado, recuso-me a olhar a Albânia sob o ângulo do pessimismo sistemático ou da nostalgia ultrapassada, de uma fotografia humanista ao retardador. Mas existe efectivamente um "Enver" e um lugar de decoração neste país; à imagem dos edifícios com rés do chão novinhos em folha cujos andares superiores continuam, ainda por algum tempo, em pedaços.

*N.T: O título original da exposição é "Albanie de L'Enver à l'endroit". Em francês este título presta-se ao trocadilho entre o nome Enver (de Enver Haxo), e a expressão "envers" e "endroit" que significam avesso e direito.

Texto: Yves Rousselet
Tradução: Sofia Quintas

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publicada em:
2006.12.02